Eu só queria entender o porquê de eu estar escrevendo um segundo texto sobre o mesmo assunto. Descobrir o real motivo de eu querer tanta coisa, e sentir necessidade de exteriorizar tantos detalhes em forma de palavras razoavelmente agrupadas que, no fim, não geram sentido algum. Aliás, eu só queria entender o que me faz sentir tão bem e aliviado ao escrever qualquer coisa, numa sensação de quase nirvana (tá, eu exagerei), me deixando plenamente satisfeito e tranquilo após transpor um quilo de pensamentos em uma meia dúzia de frases.
Eu só queria entender porque perdemos a inocência da infância. Descobrir porque, ao sorrirmos enquanto crianças, a felicidade é ali expressa de forma genuína; genuinidade esta que é perdida ao longo do tempo, sendo substituída por uma felicidade velada, fantasiada de plenitude, com propósito de mostrar ao mundo que "relaxa, tá tudo bem comigo".
Eu só queria saber de onde vem a minha desconfiança com relação às pessoas em geral. Analisar, pensar e raciocinar o motivo pelo qual não consigo confiar em ninguém e, como consequência, não consigo me sentir plenamente confortável quando necessito de favores e/ou de companhias de outrem.
Eu só queria saber conversar com bebês sem parecer um retardado. Demonstrar carinho por pessoas próximas a mim sem parecer um exaltado. Elogiar pessoas bonitas ao meu redor sem parecer um depravado. Intrometer em assuntos adjacentes de meu interesse sem parecer um intrometido.
Eu só queria entender algumas futilidades do mundo moderno. Descobrir qual a utilidade do "novo padrão de tomadas do Brasil". Saber por que as baterias dos celulares e notebooks acabam tão rápido. Desvendar se a cor do vestido é preto e azul ou branco e dourado, e por qual motivo isso foi divulgado tão amplamente pela mídia. Compreender o porquê de os outros não gostarem das músicas que eu gosto. E entender por que diabos estou com "Where Is My Mind" em minha cabeça enquanto escrevo esse texto.
Eu só queria entrar em um ônibus vazio. Ouvir a minha música calmamente. Poder colocar a mochila na poltrona vazia ao lado, esticar as pernas e evitar uma trombose. Poder pensar tranquilamente sobre a vida, o universo e tudo o mais. Conjecturar planos mentais, planejar o meu futuro, lembrar da menina bonita que vi mais cedo. Fantasiar uma vida com essa menina, ser feliz ao lado dela, e poder acordar desse transe idiota, rir da minha própria cara e perceber que o mundo real não é bem assim.
Eu só queria saber porque eu tenho tanto tempo livre para pensar tanta coisa assim.
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