15.3.13

Relatos #1


A total e completa inexperiência que tenho me permite dizer que casos dessa natureza me tocam. Eu sei, verei muitas situações parecidas, e muitas vezes mais tocantes, e tenho medo de perder esse sentimento de humanização que me permeou nesta que se segue.

Na excursão semanal ao posto de saúde, eu, meus colegas, o médico e a agente de saúde visitamos uma senhora de cerca de 80 anos de idade. Sentamos para conversar com ela, e percebia-se claramente que ela falava extremamente rápido. "Deve ser fruto de uma ansiedade à flor da pele",pensei. Enquanto o médico perguntava sobre como andava a vida da senhora, fiquei analisando-a. A pele estava aparentemente fraca, e seus músculos claramente não conseguiam "dar conta do recado", devido provavelmente à idade. Ao prosseguir com a entrevista, o médico descobriu que a paciente, além de sentir dores estomacais  ao tomar o seu remédio diário para controle de sua condição (hipertensão ou diabetes, a memória me falha no momento) e piorar os seus problemas circulatórios, ela apresentava um quadro de tristeza. No momento, o filho dela nos conta que a tristeza era devido ao fato de a família ter se mudado para o bairro recentemente. Na moradia antiga, a senhora conhecia todos os moradores, e perambulava normalmente por toda a região. Ao se mudar, se sentiu deslocada, isolada, sozinha. E, com isso, veio a tristeza. Todos os seus laços foram rompidos, todas as relações que ela possuía com o ambiente foram embora. E isso a marcou profundamente.

E como reconstruir tudo isso que foi perdido? Como essa senhora poderá se sentir completa novamente? Os pedaços que foram perdidos nessa mudança nunca serão completamente reconstituídos. 

Mas, em momento algum, ela pareceu desistir. Para ela, a vida segue longe do fim, e ela fará o máximo para reconstituir as partes que foram danificadas.


E durante a entrevista com o filho dela, concluímos que o fato da dicção acelerada era provavelmente hereditária. 

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