27.8.17

Autorretrato.

Passaram-se alguns dias, semanas, meses. Nesse tempo, sorrisos eram demonstrados, mas apenas como movimentos fúteis e irrisórios; eles teimavam em não vir do fundo da alma, e objetivavam apenas mascarar um conflito interno incessante. Meu esboço de movimento facial aparecia para mentir ao mundo que eu estava satisfeito e tranquilo, enquanto, por dentro, meus demônios me atormentavam e me tiravam o sono. Literalmente.

Ah, esses demônios. Insistiam em reaparecer em momentos inconvenientes, sem razão de ser, de maneiras inusitadas, sem direito a aviso prévio. Ora me calavam, ora faziam verter lágrimas involuntárias, ora simplesmente me tiravam do eixo de equilíbrio. Demônios antigos, matutos, espertos, que sabem os exatos pontos nos quais a estrutura emocional e pessoal é fraca, aonde exatamente ela se apoia.

E finalmente, após sacrifícios pessoais que ocorreram em vão, entendi. Nada disso possuía razão de ser. O sorriso prévio, que vinha apenas para sacramentar o meu conflito, precisaria vir para refletir ao mundo que ainda há vontade de seguir em frente. Os demônios que me atormentam, apesar de serem inseparáveis de mim, não precisam trabalhar como "seres" que me prendem à inércia de uma vida repetitiva e paranoica. Eu possuo a opção de enxergar o copo meio vazio da mesma forma que possuo a opção de enxergá-lo meio cheio. Me rendo ao clichê, mas digo que isso tudo é apenas "uma questão de pontos de vista".

E finalmente, finalmente, um sorriso sincero, transparente, desnudo. Aliviado.

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