Acordo. Abro os olhos e,
repentinamente, por eles escorrem algumas poucas lágrimas. Entretanto, estas
não são de tristeza ou descontentamento; muito pelo contrário: ao mesmo tempo,
sorrio. Sorrio de orelha a orelha, por um motivo que entenderia apenas alguns
minutos depois.
Me sento na cama. Continuo
sorrindo, ainda sem entender o porquê, mas a sensação que permanece é a de uma
plenitude, tranquilidade, suavidade, nunca antes sentida. Como que num estalar
de dedos, percebo o motivo desta espontaneidade: me sinto feliz pelo simples
fato de estar vivo.
Percebo, agora, o quão importante eu sou para mim mesmo.
Entendo que não preciso sofrer, e que devo agradecer a cada segundo pela vida.
Compreendo que, apesar dos altos e baixos, a vida deve ser celebrada por si só,
sem que existam motivos especiais para tal.
A partir de então, comecei a
enxergar o copo ‘meio vazio’ como ‘meio cheio’. Decepções e fracassos estão aí,
permeando a nossa existência, mas não devem norteá-la. Viver em detrimento
daquilo que faz mal tem o poder de agravar a insanidade, mas agradecer por tudo
que há de melhor traz ao rosto sorrisos sinceros, e lágrimas de felicidade.
O sofrimento existe, é cotidiano,
recorrente, repentino. E, por conta dele, a satisfação de estar vivo e poder
aproveitar tudo de agradável que a mera existência pode trazer fica adormecida,
latente, morta. Uma demonstração muscular, quase que espasmódica, que vem da
alma, e reflete a pureza da existência, insiste em ser demonstrado através dos
lábios; e, quando vem, afasta todo o desgosto para longe.
O sofrimento é válido e, em
alguns casos, até necessário. Necessário para que, a partir dele, nos reergamos
e nos tornemos pessoas melhores e mais fortes. Mas a sua persistência nos torna
quebrados, sem nexo, sem razão para estarmos vivos.
E, às vezes, um mero sorriso é
capaz de nos trazer de volta ao conforto da vida.
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