4.6.17

Pontos de vista.

Acordo. Abro os olhos e, repentinamente, por eles escorrem algumas poucas lágrimas. Entretanto, estas não são de tristeza ou descontentamento; muito pelo contrário: ao mesmo tempo, sorrio. Sorrio de orelha a orelha, por um motivo que entenderia apenas alguns minutos depois.

Me sento na cama. Continuo sorrindo, ainda sem entender o porquê, mas a sensação que permanece é a de uma plenitude, tranquilidade, suavidade, nunca antes sentida. Como que num estalar de dedos, percebo o motivo desta espontaneidade: me sinto feliz pelo simples fato de estar vivo.

Percebo, agora,  o quão importante eu sou para mim mesmo. Entendo que não preciso sofrer, e que devo agradecer a cada segundo pela vida. Compreendo que, apesar dos altos e baixos, a vida deve ser celebrada por si só, sem que existam motivos especiais para tal.

A partir de então, comecei a enxergar o copo ‘meio vazio’ como ‘meio cheio’. Decepções e fracassos estão aí, permeando a nossa existência, mas não devem norteá-la. Viver em detrimento daquilo que faz mal tem o poder de agravar a insanidade, mas agradecer por tudo que há de melhor traz ao rosto sorrisos sinceros, e lágrimas de felicidade.

O sofrimento existe, é cotidiano, recorrente, repentino. E, por conta dele, a satisfação de estar vivo e poder aproveitar tudo de agradável que a mera existência pode trazer fica adormecida, latente, morta. Uma demonstração muscular, quase que espasmódica, que vem da alma, e reflete a pureza da existência, insiste em ser demonstrado através dos lábios; e, quando vem, afasta todo o desgosto para longe.

O sofrimento é válido e, em alguns casos, até necessário. Necessário para que, a partir dele, nos reergamos e nos tornemos pessoas melhores e mais fortes. Mas a sua persistência nos torna quebrados, sem nexo, sem razão para estarmos vivos.


E, às vezes, um mero sorriso é capaz de nos trazer de volta ao conforto da vida.

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