50 metros. Eu estava lá, andando normalmente pelas calçadas da cidade, imerso no meu universo alternativo da música, com um aparato tecnológico que me trará surdez progressiva ao longo da vida: o bom e velho fone de ouvido. O sol batia diretamente na minha cara, ofuscando minha visão da "paisagem". Quando reparo na minha frente, vejo a silhueta de uma mulher (ou pelo menos eu imagino que era uma mulher... podia ser um headbanger também). Poderia falar aqui que existia um vento que lhe batia aos cabelos, que esvoaçavam e traziam um aspecto hollywoodiano à cena, mas não; estava calor para car*lho, e não havia um sopro de vento sequer no local. Via sua silhueta, não distinguindo sequer qual era a cor da roupa que ela usava; afinal, 50 metros era a distância que nos separava.
30 metros. Nesta distância, já via melhor a imagem da dita cuja. Por sorte, não era um headbanger. Era uma mulher, loira, cabelos lisos até pouco acima da cintura, usava óculos escuros. Tinha uma bolsa vermelha pendurada em seu braço esquerdo. Andava mexendo ao celular, que por sinal era bastante parecido com o meu. Fones de ouvido estavam pendurados ao seus ouvidos, e a única coisa que eu pensava neste momento era "por favor, que a música que ela esteja ouvindo não seja axé". Ela era linda, ou pelo menos aparentava ser a esta distância.
15 metros. Agora sim. Já era capaz de vislumbrar bem os contornos do corpo e do rosto da loira em questão. Um rosto delgado e delicado, transparecendo um ar de tranquilidade, serenidade, calmaria. Seu andar era completamente sincronizado, bem articulado, de modo com que cada um de seus passos parecia acompanhar os compassos da música que eu ouvia.
De tão estupefato que fiquei, trombei com essa mulher. Derrubei a sua bolsa. Fiquei com muita vergonha, e de prontidão a ajudei a recolher os itens que de lá caíram. Ela, com um sorriso no rosto, disse não se importar com o acontecido, e se abaixou para me ajudar. Retirou os óculos escuros, demonstrando um par de olhos verdes claros que pareciam duas joias reluzentes. Terminei de pegar suas coisas, me levantei desconcertado, pedi novas desculpas, e... por um impulso, pedi seu celular. Ela deu um sorrisinho... mas me passou o número.
Adicionei no Whatsapp. Conversamos alguns dias depois, por bastante tempo... Tornamos a nos encontrar algumas vezes, e nos tornamos um casal. Nos casamos, nos mudamos para a capital do Estado, e vivemos felizes para sempre.
0 metros. Acordei da minha epopeia imaginária. Passei do lado da dita cuja, olhando-a sem pestanejar por um momento sequer. O cheiro de seu perfume inundou minhas narinas; fiquei ainda mais estupefato com a mulher.
Ela passou do meu lado. Eu passei do lado dela. Eu não sei o nome dela. Ela sequer sabe que eu existo.
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