11.1.14

Uma carta ao mar.

Olá. Bom dia, boa tarde, boa noite ... Tanto faz. Você não me conhece, eu não te conheço, então acredito que estas formalidades não se fazem necessárias neste contexto. 

Não sei sequer se estas palavras serão lidas por alguém em algum lugar, mas mesmo assim eu as escrevo. É o primeiro texto que escrevo sendo redirecionado a qualquer um, alguém ou ninguém. Portanto, fico um pouco travado em minhas palavras. Me sinto num completo monólogo. Entretanto, vamos supor que estou conversando com alguém, e que este alguém possa me responder algum dia. Acho que tudo fluirá melhor.

Então, conte-me mais... como você foi parar aí, neste local inócuo? Como você prossegue vivendo aí, cercado de água por todos os lados e sem nenhuma pessoa para com quem conversar? Engraçado ... eu estou aqui, em terra, cercado de gente, mas também não tenho com quem conversar ... e portanto enrolei um pedaço de papel numa garrafa e a joguei ao mar, na esperança de alguém ler estas palavras. Estranho, né? Estamos em extremos opostos,vivendo um contexto bastante parecido.

Você já se acostumou com a ausência de novos seres humanos? A troca de experiências que você possuía enquanto membro de uma sociedade ativa, ao conversar com pessoas, lhe faz falta? Meu amigo companheiro irmão camarada, e se eu te disser que eu, enquanto cidadão pertencente a isto tudo, muitas vezes me sinto privado disso? E não, eu não me importo. Não mais, é claro. Entender que a solidão é uma constante é quase que uma arte. Veja bem, a solidão a que me refiro diz respeito ao fato de se sentir incompleto mesmo enquanto rodeado de pessoas. Pessoas estas que são essenciais à você, apesar de tudo. Entretanto, no fritar dos ovos, é você em conflito consigo mesmo.

E nesse mesmo âmbito de socialização... você já precisou confiar em alguém, meu caro náufrago? Você já passou por uma situação na qual a única coisa que lhe conforta é saber que aquela pessoa está do seu lado, mas no fim das contas, ela se esvai como uma névoa, e você está só? Claro que já, todos já passamos por isso. Todos teimamos em confiar nossos mais profundos segredos a pessoas quaisquer, e no fim das contas você é apunhalado pelas costas. Isso é normal, creio eu. Mas por que insistimos em acreditar que a índole do ser humano mudará? Por que acreditamos que "aquela pessoa é diferente das demais", e portanto será digna de confiança? Não, não é assim! Todos somos passíveis de erro, todos somos imperfeitos! E é justamente a imperfeição que nos torna tão ... humanos!

Enfim, eis o nosso improvável diálogo (ou o meu provável monólogo). Caso alguém leia esta carta, me procure quando/se algum dia for salvo. Saiba que, por algum motivo, esta carta caiu em suas mãos, e não nas mãos de outro. "Mas como vou te responder?" Ah ... Deixe que o destino aja novamente. 

Abraços sinceros de seu ... amigo.

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